Efeito borboleta

Faz tempo que não escrevo um “artigo” um pouco mais completo aqui no blog, mas acho que é um bom momento. Na últimas semanas alguns fatos chamaram a atenção das pessoas – por seus efeitos negativos e positivos – e eu não pude deixar de acompanhar a repercussão entre as pessoas que me cercam.

Não posso dizer que é algo sem exceção, mas em regra geral, nós, seres humanos, temos uma enorme tendência para defender os “nossos”, aquilo que nos atinge e o que gostamos, sem necessariamente fazer uma reflexão mais aprofundada sobre os efeitos das nossas reações.

Postei ontem no twitter os resultados de uma pesquisa falando sobre as sacolas de plástico versus as sacolas ecológicas. Confesso que tentei mudar meus hábitos com o surgimento das ecobags, mas não consegui totalmente e fiquei surpreso com os resultados na pesquisa que dizem que as sacolinhas plásticas podem não ser o grande vilão da história.

tartaruga plastico

Também ontem (e também via twitter), compartilhei alguns links com o lançamento do iPad2, porque sei que muitos dos meus “seguidores” gostam de acompanhar as novidades em tecnologia. E também porque eu admiro o Steve Jobs e não gosto do Bill Gates. Fico apreensivo quando comentam sobre a saúde do Mr. Jobs, mas acredito que não teria a mesma apreensão caso o velho Bill tivesse um grave problema de saúde.

Bem, mas eu já li em algum lugar que o Bill Gates dedica boa parte da sua fortuna para causas nobres. Enquanto a Apple fabrica seus gadjets em fábricas com condições insalubres, o que favorece inclusive a prática do suicídio por parte dos trabalhadores, segundo a reportagem de capa da revista Wired, que uma amiga compartilhou ontem (também no twitter ).

wired

Eu poderia não ter me afetado pela notícia, mas eu ainda acredito que nós podemos fazer um pouco de diferença no mundo através das nossas atitudes de consumo. Já tive épocas em que comprava muitos produtos orgânicos, ainda busco fabricantes regionais no mercado para valorizar a região, na agência sempre investimos em talentos locais e inclusive já deixei de comprar em estabelecimentos que não oferecem um tratamento digno aos seus funcionários.

Mas eu gosto da Apple.

(Mas) eu paro na faixa. Mesmo não morando em Porto Alegre. Mesmo sabendo que lá é cada vez mais comum um adesivo “eu parei na faixa” estar colado em carros com a traseira amassada. Fazer o bem é algo tão complicado que pode nos fazer mal, em cidades apressadas que criam frutos do seu meio, que fazem coisas inacreditáveis como o atropelamento na Massa Crítica.

bicicleta

Eu ando pouco de bicicleta. Quando morava em São Paulo, parei de andar quando tentaram roubar minha caloicross. Quando me mudei pra Lajeado, depois que roubaram a montain bike da minha mulher, compramos outra e tentamos voltar aos bons hábitos, mas fomos impedidos pelas ladeiras, pelo sedentarismo e pela preguiça. Talvez por isso não roubaram mais a nossa bicicleta. Mas com certeza os “sem bicicleta” continuaram a ser ladrões de bicicletas, sem a mesma poesia do filme homônimo, mas sim frutos do mesmo meio que produz apressados, assalariados, avariados e assassinos. Mas nos filmes os assassinos também podem ser poetas, admirados por quem tem tempo para admirar a arte, provavelmente menos apressados e mais adeptos ao ciclismo do que os bancários.

ladridibiciclette

Já presenciei um atropelamento e já fui impactado por outros tantos. Felizmente nunca estive ao volante nesses momentos. Mas, sempre, automaticamente, em todos os casos, reavaliei o peso do meu pé no acelerador. Imagino que, para algumas pessoas, o acontecido em Porto Alegre tenha um impacto semelhante. Tirar o pé. Pode ser otimismo, mas gosto de acreditar que alguns motoristas evitaram atropelar outras pessoas simplesmente por ter reavaliado sua pressa e seu estresse. Também quero acreditar que alguns ciclistas também reavaliaram sua postura no trânsito. E principalmente, quero acreditar que um pouco mais de gentileza tenha sido gerada, muito além da indignação e da revolta, que é mais forte e muito mais presente em quem esteve mais próximo do ocorrido.

O mundo está cheio de atrocidades. Algumas chamam mais a atenção. Algumas geram indignação. Outras viram filme. Algumas a gente não percebe e carrega no bolso, veste no corpo, enche no copo e enfia na goela.

Pra se desapegar desse carma imenso, só fazendo um pouco de coisas boas todos os dias. Bem pequenas de preferência, pra não ter perigo.

Porque fazer o bem é algo complicado. Os ciclistas, o Steve Jobs e Bill Gates que o digam.

E olhem só o que eu reparei, minha bicicleta tem várias partes feitas em países asiáticos. Provavelmente em fábricas vizinhas àquelas que fabricam os produtos da Apple.

Fazer o bem é algo realmente complicado.