Que fim levaram as normalistas?

“Gente de minha rua
Como eu andei distante
Quando eu desapareci
Ela arranjou um amante
Minha normalista linda
Ainda sou estudante
Da vida que eu quero dar… ”
(Belchior)

Duas notícias na semana que terminou ontem, dia 20 de março de 2010 e mais um papo com a minha filha Ana Luiza fizeram-me pensar, mais uma vez, sobre educação. Em ordem cronológica:

1. A revista Época do dia 15 de março publicou o artigo “Dá pra educar fora da escola?“, que começa falando de um casal que, insatisfeito com a qualidade de ensino em sua região, resolveu tirar os filhos da escola e educá-los por conta própria. Adiante o artigo mostra casos de sucesso de alunos educados em casa, dentre eles o ex-presidente americano Franklin Delano Roosevelt.

2. O Jornal Informativo de Lajeado publicou na edição do dia 17 de março, em suas páginas 14 e 15, uma matéria sobre a consequência da escassez de normalistas. Uma série de projetos educativos públicos e privados estão sendo adiados – e crianças são prejudicadas – pela falta de mão de obra que normalmente vinha de convênios de estágios com escolas que formam professores em nível médio. Mas a escassez da formação de professores em nível superior para as séries iniciais também já é notada. Na página web do jornal é possível acessar, seguindo o link para a edição impressa, todo o conteúdo desta matéria.

3. No dia 18 de março a Ana Luiza tocou violino na recepção dos novos alunos do Colégio Madre Bárbara, onde ela cursa o terceiro ano do ensino médio. Como bom pai coruja, acompanhei minha menina prodígio e babei, junto com todos os presentes, com sua apresentação. Na volta para casa comemos um pastel no Q-Fomis e passamos na casa dos meus pais onde, bem pertinho, tem uma loja de bijuterias. Ali a Ana Luiza apresentou-me às “shag bands”, pulseirinhas do sexo, que já haviam aparecido em seu colégio e que inclusive geraram a manifestação de sua direção. Resumidamente, a guria usa uma série de pulseirinhas coloridas no braço, o guri arrebenta uma delas e conforme a cor ganha um prêmio que vai do abraço a uma relação sexual completa, passando por lap dance e sexo oral.

Agora me diga, quem é que vai querer ser professor para encarar situações deste tipo? Ainda mais quando há pais omissos que preferem passar integralmente para a escola não só a formação educacional de seus filhos mas também a responsabilidade por seu comportamento. E quantos não são os pais que, havendo condições para isto, não prefeririam escudar seus filhos destes e outros perigos e educá-los em casa?

Sinceramente espero que possamos fazer alguma coisa para tornar a profissão de professor novamente atrativa. Quando eu era criança, minha irmã brincava de ser professora, depois formou-se no normal e deu aulas por algum tempo. Minha mãe aposentou-se como professora. Minha mulher também foi professora, assim como muitas amigas dela. É difícil pensar em alguém querer ser professor hoje depois de assistir a tantos vídeos de alunos espancando professores em sala de aula e imaginar ter que lidar com o furor uterino de alunos com pulseirinhas.

A posição do Colégio Madre Bárbara sobre as pulseirinhas é admirável: cabe à escola conscientizar os alunos sobre o assunto mas proibir, ou não, é função dos pais. “Os pais precisam criar limites e dialogar com seus filhos, esclarecer que isso pode ser um ato de desrespeito com o próprio corpo e aproveitar o assunto para falar com eles sobre sexualidade”, diz Odete Spessato, orientadora do colégio.

Na educação das crianças pais e escola deveriam ser parceiros e coisas como pulseirinhas devem ser discutidas com a consciência de que elas existem. Troca na sentença acima a palavra “pulseirinhas” por “crack”, “álcool”, “pedofilia”, “gravidez”, “aids”, tudo o que precisa ser falado e não é. Riscos fazem parte da vida e conhecê-los é o primeiro passo para que sejam evitados. A proibição pura e simples de uma coisa qualquer não ajuda em nada e pode ter o efeito contrário. Adolescentes gostam de transgredir, experimentar o proibido e irão fazê-lo. Antes que o façam com consciência e a liberdade de diálogo com seus pais e educadores. Não o diálogo em que o pai chega bêbado em casa e quer dar sermão no filho que está fumando um baseado.

Pra mim faz mais sentido a educação junto à sociedade, com a participação dos pais, escola, amigos, meios de comunicação, redes sociais e tudo o mais. A opção por educar os filhos em casa também deve levar isto em conta e, na minha opinião, a exclusão da escola (ou outros ambientes de socialização) só deve ser feita em casos extremos. Eu sempre faço uma redução ao absurdo quando penso neste tipo de coisa. Imagina a opção de educar as crianças sem a presença dos pais? Ou afastar as crianças do convívio social para a sua educação? A história fala por si.

Houvesse uma fórmula certa para a educação de nossos filhos eu gostaria de tê-la descoberto. Provavelmente até estaria rico. Mas não. Sou um pai com milhares de defeitos, todos eles bem conhecidos e enumerados pelas minhas filhas e pela minha mulher. Meus pais, por sua vez, estão próximos da perfeição, mas não puxei a eles neste aspecto. Pior ainda, há defeitos que eu nem reconheço! Mas uma coisa da qual eu e minha mulher nunca abrimos mão foi a ativa participação na formação de nossas filhas. Mesmo ambos trabalhando, muitas ausências em viagens, algumas brigas e crises familiares no caminho, as pessoas que nós colocamos no mundo sempre foram nossa responsabilidade. Não somos os únicos. Todos aqueles que amam de verdade seus filhos sabem exatamente do que estou falando. Fórmula perfeita não tem mesmo, mas não há dúvida que amor e presença (mesmo virtual) têm que fazer parte desta fórmula para que ela tenha alguma chance de sucesso.

Mais uns links:

Matéria da BBC sobre as pulseirinhas – vale a pena dar uma passada nos comentários
Mallu Magalhães e a Escola