Fora de lugar

Li no site IDG Now que o Ministério da Cultura está preparando um projeto para uma nova lei de direitos autorais. Uma das novidades é a possibilidade de o dono de um cd, por exemplo, fazer legalmente um cópia privada do conteúdo do seu disco em outra mídia, para uso pessoal.

Outra boa notícia é que o uso de pequenos trechos de áudio ou vídeo será permitido para a criação de mashups. Mashups, para quem não sabe, são mais do que simples remixes (talvez seja a evolução destes): trata-se da fusão de diversas músicas ou elementos musicais em uma nova faixa. No cenário internacional, temos o Girl Talk e o 2 Many DJs / Soulwax como exemplos de artistas de mashup; no Brasil, The Twelves.

Neste momento em que os direitos autorais são discutidos justamente por haver um novo uso dos bens artísticos – músicas, clipes, filmes, qualquer coisa que caia na net é objeto imediato de interação por parte de muitos dos navegantes -, não é de surpreender que os próprios artistas se desloquem de seus lugares originais. No âmbito da música, um dos sinais disso é o crescente aparecimento de supergrupos.

Um supergrupo é um grupo formado por integrantes de outros grupos consagrados. Já tivemos, por exemplo, Fantômas, Gorillaz, Mad Season, Audioslave e, mais recentemente, Chickenfoot, Them Crooked Vutures e a banda do Thom Yorke (sem nome, o que não é pouco significativo). Também temos um caso brasileiro: Nove Mil Anjos, atualmente fora de atividade. DE todos, o mais interessante que me vem à cabeça é o Broken Social Scene, um coletivo de bandas (eles, apesar de tudo, recusam o título de supergrupo) que envolve membros do Metric, Do Make Say Think, Land of Talk e Stars, entre outros. É muita gente, de diferentes estilos musicais. E a banda é boa.

Alguns membros do Broken Social Scene

Alguns membros do Broken Social Scene

É interessante notar que os músicos não estão conformados com seus grupos originais e suas músicas de sempre. Em vez de optar por mais um disco, que sempre leva ao dilema “inovar e arriscar a perder fãs” ou “manter a sonoridade e ficar para trás”, muitos artistas preferem um situação não-estática de suas carreiras. Com isso, derrubam gêneros musicais antigos e surgem – ou ao menos é o que esperamos – novas experiências sonoras. Fica difícil, às vezes, saber em que prateleira procurar um CD novo. Mas quem procura CDs em lojas?

Por fim, não é só os músicos que trabalham com esse dinamismo, com essa zona de indeterminação. Recentemente, David Lynch fez um projeto de álbum com Danger Mouse e Sparklehorse, chamado Dark Night of The Soul. Sem nenhuma surpresa, conta em cada faixa com a participação de um diferente intérprete: Julian Casablancas (The Strokes), Wayne Coyne (The Flaming Lips), Suzanne Vega, etc.

Há, também, um movimento contrário, que é o retorno de antigas bandas: Alice in Chains com novo vocalista, as turnês do Faith No More e do Pavement a princípio seria um contrapeso ao que tentei destacar. Por outro lado, podemos lembrar também que se trata de músicos que não deixaram defazer outros projetos bem sucedidos nos últimos anos – é inegável a qualidade da carreira solo de Jerry Cantrel e Stephen Malkmus (Alice in Chains e Pavement, respectivamente), sem falar nos inúmeros trabalhos de Mike Patton (Faith No More).

Muito mais pode e deve dito sobre o tema. Por ora, basta que se torne claro um sinal de nossos tempos: de que tudo e todos estão mudando de posição (exponencialmente), e que estar em movimento é essencial.

PS: deixo de colocar os links para todos os artistas citados porque são muitos. Felizmente, temos ferramentas interativas para copiar e colar no Google ;)